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10:16 PM
A DESPEDIDA DO AMOR
Existem duas dores de amor. A primeira é quando a relação termina e
a gente, seguindo amando, tem que se acostumar com a ausência do
outro, com a sensação de rejeição e com a falta de perspectiva, já que
ainda estamos tão envolvidos que não conseguimos ver luz no fim do
túnel.
A segunda dor é quando começamos a vislumbrar a luz no fim do túnel.
Você deve achar que eu bebi. Se a luz está sendo vista, adeus dor, não
seria assim? Mais ou menos. Há, como falei, duas dores. A mais dila-
cerante é a dor física da falta de beijos e abraços, a dor de virar desim-
portante para o ser amado. Mas quando esta dor passa, começamos
um outro ritual de despedida: a dor de abandonar o amor que sentíamos.
A dor de esvaziar o coração, de remover a saudade, de ficar livre, sem
sentimento especial por ninguém. Dói também.
Na verdade, ficamos apegados ao amor tanto quanto à pessoa que o
gerou. Muitas pessoas reclamam por não conseguir se desprender de
alguém. É que, sem se darem conta, não querem se desprender.
Aquele amor, mesmo não retribuído, tornou-se um suvenir de uma é-
poca bonita que foi vivida, passou a ser um bem de valor inestimável,
é uma sensação com a qual a gente se apega. Faz parte de nós.
Queremos, logicamente, voltar a ser alegres e disponíveis, mas para
isso é preciso abrir mão de algo que nos foi caro por muito tempo, que
de certa maneira entranhou-se na gente e que só com muito esforço é
possível alforriar.
É uma dor mais amena, quase imperceptível. Talvez, por isso, costu-
ma durar mais do que a dor-de-cotovelo propriamente dita. É uma dor
que nos confunde. Parece ser aquela mesma dor primeira, mas já é
outra. A pessoa que nos deixou já não nos interessa mais, mas inte-
ressa o amor que sentíamos por ela, aquele amor que nos justificava
como seres humanos, que nos colocava dentro das estatísticas: eu
amo, logo existo.
Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo. É o arremate de
uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância,
mas que precisa também sair de dentro da gente.
Martha Medeiros

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12:47 AM

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